Microcosmo
da sociedade, as instituições de assistência à saúde refletem mudanças
ocorridas ao longo do tempo
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Foto:
Acervo Fiocruz. |
Por Karine
Rodrigues
Se em meio à pandemia de Covid-19 o Sistema Único
de Saúde (SUS) tem sido tábua de salvação para milhões de brasileiros, qual era
o destino das pessoas que buscavam assistência à saúde há pouco mais de cem
anos? Na virada para o século 20, em geral, as pessoas eram cuidadas em casa.
Mas, quando pobres e doentes, a saída era tentar um espaço nos hospitais
filantrópicos.
Os pobres
viviam no limite. Se algo desse errado, tudo saía do lugar. E o que mais os
tirava do lugar? A doença. Porque o único bem que possuíam era a força do
trabalho. E, se doentes, não trabalhavam, impedindo a subsistência
“O
hospital não era um lugar para onde as pessoas iam para buscar atendimento.
Quem tinha alguma condição, era tratado em casa. O hospital era lugar de quem
não tinha recurso algum e não podia se ancorar na família quando doente”,
observa Gisele Sanglard, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz).
Um estudo
conduzido pela historiadora mostra que os pobres atendidos à época nas
instituições de caridade não necessariamente pertenciam a grupos julgados mais
vulneráveis, como imigrantes, operários ou descendentes de pessoas
escravizadas. “Há um século, a pobreza não era monetária. Não era o dinheiro
que determinava o pobre. O grande definidor da pobreza era a ausência da rede
de solidariedade primária, ou seja, da família”, diz a pesquisadora. A pesquisa
resultou na publicação, pela revista Tempo, do artigo Pretos e pardos nas instituições de assistência à saúde
no Rio de Janeiro (1850-1919): um estudo sobre o louco-pobre,
escrito com a arquiteta Jeanine Claper, doutora em História das Ciências e da
Saúde pela Casa.
SUS, a grande força por trás da pandemia
Como os
pobres dependiam completamente da força do trabalho para sobreviver, quando
adoeciam, recorriam à filantropia. “Eles viviam no limite. Então, se algo
desse errado, tudo saía do lugar. E o que mais tirava o pobre do lugar? A
doença. Porque o único bem que eles possuíam era a força do trabalho. E, se
doentes, não trabalhavam, impedindo a subsistência mínima, a sobrevivência. A
doença era, portanto, um fator desestabilizante. Precisavam ir à Misericórdia
porque não tinham mais recurso algum”, detalha Sanglard.
A noção
de saúde pública estava restrita ao combate às epidemias. Determinadas
associações e fundações abriam hospitais para acolher quem desejassem.
Instituições filantrópicas também funcionavam em caráter discricionário,
mas eram o único socorro disponível para os pobres.
“A pressão da pobreza era tão grande que elas não conseguiam mais fazer as
escolhas delas. Não tinham capacidade para atender todos os pobres, daí a
necessidade de se reformar essa rede de atendimento. Foi um longo processo, que
tinha a ver com transformação da saúde e da saúde pública. O advento do
bem-estar social é uma construção que só vai ser efetivada no mundo depois de
1945”, explica a historiadora.
No
Brasil, durante anos, só quem tinha socorro garantido pelo Estado eram os
trabalhadores com carteira assinada. O cenário só veio a mudar com a criação do
SUS, em 1988. “Não resta dúvida de que o SUS é a grande força por trás da
pandemia [de Covid-19]”, avalia Sanglard, embora considere que ainda exista uma
desigualdade muito grande de acesso ao sistema no que tange à oferta de leitos
hospitalares, ao compararmos diversos estados.
O hospital como microcosmo da sociedade
No
artigo, as autoras descrevem que até a abolição da escravatura, nem toda a
população pobre conseguia guarida nos hospitais de caridade, pois se tratavam
de espaços privados e de caráter discricionário. Escravos, por exemplo, tinham
ali um espaço limitado. Teriam direito à gratuidade se fossem a única posse de
um senhor, o que configuraria o estado de pobreza deste último. Em todas as
outras situações, os escravos deveriam ter a assistência custeada pelo seu
dono.
“O
hospital informa sobre a sociedade na qual ele está inserido. É um microcosmo
da sociedade”, diz Sanglard, citando entendimento proposto pelos autores
britânicos Lindsay Granshaw e Roy Porter. “Considero esse o melhor entendimento
para compreender o hospital”, acrescenta a pesquisadora da Casa, que segue a
filiação historiográfica dos autores de The hospital in history,
coletânea lançada em 1989.
Quando
refinamos os dados, encontramos uma inversão completa no hospital: ele deixa de
ser um hospital de jovens brancos e solteiros para se tornar um hospital de
pretos e velhos, pois também a faixa etária aumenta
As
autoras seguem essa linha teórica e argumentam que o perfil sociocultural e racial
dos doentes em instituições de assistência à saúde no período de 1850 a 1919,
no Rio de Janeiro, reflete a sociedade da época, marcada por intensas
transformações, como a abolição da escravatura, a remodelação urbana, a
migração e a adoção de critérios científicos no processo de institucionalização
dos loucos.
Com base
em dados encontrados em relatórios médicos e também por estudos conduzidos por
outras pesquisadores, as autoras mostram que a Lei dos Sexagenários, que em
1885 concedeu liberdade aos escravos com mais de 60 anos, e a Lei Áurea, que
decretou a abolição da escravatura, três anos depois, impactaram no perfil dos
doentes atendidos nas instituições de assistência à saúde. Antes tutelados
por seus senhores, os escravos, se viram, de uma hora para outra, sem teto, sem
comida, sem trabalho, sem assistência à saúde. Quando doentes, especialmente os
velhos, passaram a recorrer aos hospitais de caridade, pois estando a um passo
da miserabilidade, poderiam ser atendidos gratuitamente.
Com a abolição, hospital muda de cor e faixa etária
A análise
de dados do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Valença, no Vale do
Paraíba fluminense, aponta a mudança do perfil dos pacientes no período em
análise. Com a Lei dos Sexagenários, o hospital, onde havia uma grande
prevalência de homens jovens e brancos, aos poucos, muda de cor e de faixa
etária. “A presença de pretos aumenta 222%, enquanto os brancos decrescem
176%”, diz Sanglard, sobre dados referentes ao período de 1883 a 1893. Outro
dado significativo é o percentual de 47% dos registros de alienados ser de
pessoas de cor.
“Quando
refinamos os dados, encontramos uma inversão completa no hospital: ele deixa de
ser um hospital de jovens brancos e solteiros para se tornar um hospital de
pretos e velhos, pois também a faixa etária aumenta”, diz Sanglard, que é
professora do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da
Casa.
A remodelação do Rio de Janeiro, transformado em capital da República um ano
após a abolição da escravatura, também acentuou mudanças no perfil da população
assistida nos hospitais de caridade. As demolições para aberturas de avenidas
no centro da cidade atingiram principalmente a população pobre, que morava na
região. Com a reforma iniciada em 1903, empreendida pelo prefeito Francisco
Pereira Passos (1902-1906), imigrantes, escravos libertos e seus descendentes
foram expulsos para áreas distantes. Em nome da transformação estética, novas
leis surgiram para controlar os costumes da população.
“Os dados
dos prontuários revelaram que muitos dos loucos internados nessa época e depois
dela eram oriundos dessas áreas, provavelmente, o lugar onde perderam suas
moradias e identidade”, diz o artigo.
No
Hospital Pedro II, criado para separar o louco dos doentes do Hospital Geral da
Misericórdia do Rio de Janeiro, na década de 1840, também surgiram mudanças no
perfil racial e sociocultural dos atendidos na instituição, mais tarde
denominada Hospício Nacional de Alienados. A proibição de se manter doentes mentais
em cadeias públicas, enfermarias da Misericórdia do Rio e do Asilo de
Mendicidade, logo se fez refletir na instituição.
Dados dos
relatórios ministeriais, levantados por Jeanine Claper revelam que, em 1890,
somente no Rio de Janeiro, havia 811 doentes internados no Hospício Nacional de
Alienados e sua extensão rural, as colônias da Ilha do Governador. Em 31 de
dezembro de 2017, o número havia saltado para 2.011 doentes internados. Durante
quase 30 anos, surgira apenas uma nova instituição para acolher doentes
mentais, a Colônia de Engenho de Dentro, criada em 1911.
Parte dos
doentes mentais dos municípios da província era internada no hospício anexo ao
Hospital São João Batista, em Niterói, que tinha capacidade para abrigar 40
internos. Dados dos relatórios médicos do anexo no período de 1879 a 1889,
tabulados por Claper, “demonstram situação semelhante a outras instituições da
assistência assinalando o hospício como o lugar de acolhimento dos libertos,
escravos, doentes mentais, muitas vezes diagnosticados como senis, com mais de
50 anos e 60 anos abandonados na rua, em casas de detenção ou em cadeias
públicas da província”. Os dados também revelam aumento de pretos e pardos,
tanto homens quanto mulheres, sobretudo aqueles com mais de 50 anos e 60 anos,
abandonados no ano da Lei dos Sexagenários.
Juliano Moreira: enfermidade mental não está
associada à raça
Na
reorganização da assistência a alienados, em 1903, uma boa notícia: a chegada
do médico baiano Juliano Moreira. Ao assumir a direção da Assistência a
Alienados do governo federal, trouxe um novo modelo, baseado na clínica e na
pesquisa, que revolucionou o tratamento das doenças mentais no Brasil. Ele não
via sentido em teses em voga, que associavam as referidas enfermidades ao
determinismo racial, ao clima e à hereditariedade.
A
grande maioria dos diagnósticos era de alcoolismo. Se acrescentarmos o 'delirium
tremens', o alcoolismo passa a ser o grande problema, afetando homens
e mulheres. Destes, a grande maioria era de pretos e pardos
Segundo
Claper, já em seu trabalho de formatura, Moreira introduziu questionamentos
“sobre a questão racial, num momento da sociedade em que de uma forma geral
via-se a raça negra como inferior e a miscigenação causa de variadas doenças,
inclusive da loucura e alcoolismo”.
No
Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Valença, o livro de registro de
pacientes, entre 1882 e 1897, revela que 2,3% do total 3.929 internos eram
alienados. “A grande maioria dos diagnósticos é de alcoolismo. Se
acrescentarmos o delirium tremens, o alcoolismo passa a ser o
grande problema, afetando homens e mulheres. Destes, a grande maioria era de
pretos e pardos – levando-se em consideração que entre 1882 e 1889 a presença
de escravos era ínfima (6%) e que a partir da Abolição aumenta exponencialmente
a presença de indivíduos de cor”, diz o artigo.
Claper
analisou documentos clínicos de doentes internados no Hospital Nacional de
Alienados, no período de 1890 a 1919, e encontrou comportamento similar ao
registrado no Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Valença: O alcoolismo e
suas associações era o diagnóstico mais prevalente em 47% dos brancos e 50% dos
não brancos.
Segundo
as autoras, “há muitas lacunas na assistência à saúde e suas interfaces com a
assistência ao alienado a serem preenchidas”, em especial, no tocante ao
tratamento de pretos e pardos nas instituições dos municípios da província e,
depois, do estado do Rio de Janeiro. Que novos estudos venham à luz.
FONTE :
Como eram os hospitais há um século, bem antes do SUS - Casa
de Oswaldo Cruz

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